No entanto, eles devem ser substituídos corretamente - por duas razões: A primeira é o fator nutricional, determinante no tratamento do paciente. A segunda é que sem a correta substituição, o doente pode ficar ainda mais comprometido do ponto de vista da nutrição.
A intolerância à lactose é um bom exemplo. Trata-se de um quadro que se apresenta com freqüência, de forma provisória ou permanente, nos portadores de Doença de Crohn, quando atinge o intestino delgado, a válvula íleo cecal, e, algumas vezes, o cólon ascendente - neste caso, a intolerância ocorre tanto no Crohn quanto na Colite Ulcerativa.
A lactose é um açúcar (dissacarídeo) encontrado no leite, da mesma forma que a frutose é o açúcar da fruta, e a sacarose é o açúcar da cana. Para ser absorvida pelo intestino, a lactose necessita ser quebrada em porções menores por meio da ação de uma enzima chamada lactase. Tal enzima fica na superfície da mucosa intestinal. Quando há deficiência da lactase, mesmo que parcial, as quantidades de lactose ingeridas por meio do leite não são hidrolisadas e permanecem intactas no intestino delgado, atraindo água para a região e provocando dores e edemas. Isso ocorre, no caso da doença inflamatória, por conta dos processos ulcerativos ou por retirada cirúrgica (ressecção) de uma parte doente do intestino que compromete a presença e a ação da enzima. A lactose não absorvida passa, então, para o intestino grosso. Ali é metabolizada pelas bactérias (fermentação), atraindo ainda mais água. O resultado são mais dores, edemas, flatulência e diarréia, além de a digestão e a absorção de outros nu- trientes ficarem comprometidas.
O tratamento para o problema consiste em limitar a ingestão de lactose ao limite de tolerância do paciente. Algumas pessoas podem suportar de 120 a 240 ml por dia, se ingerirem alimentos com lactose durante as refeições. Esta combinação favorece a chegada gradual da lactose ao jejuno (porção média do intestino delgado) para ser digerida.
Há pessoas, porém, cujo nível de intolerância é tal que precisam de uma dieta sem nada de lactose. Por isso, é preciso examinar cuidadosamente os rótulos de pães, bolos, biscoitos, margarinas e outros alimentos industrializados antes de consumi-los. É fundamental verificar se em sua composição de nutrientes existe leite ou produtos lácteos. Se houver, a pessoa deve ficar distante deles.
Produtos fermentados de leite, como o iogurte, são tolerados por alguns doentes. Também queijos como o Cottage possuem baixo teor de lactose. Mas o consumo dos chamados queijos macios deve ser feito com cuidado, pois a lactose é usada no processo de cremificação de alguns deles. É preciso a mesma atenção com as carnes industrializadas, pois elas podem conter leite em pó como agente ligante.
É importante saber ainda que o cozimento dos alimentos não altera a presença ou os teores de lactose. As comidas típicas judaicas (Kosher foods) não contêm leite. Elas são identificadas com um rótulo bastante confiável, uma vez que as leis judaicas proíbem que esses dois alimentos sejam consumidos numa mesma refeição. Até com remédios é preciso cautela. A indústria farmacêutica utiliza com freqüência a lactose na composição de medicamentos.
Porém, ao reduzir com rigor o consumo de produtos lácteos corre-se o risco de provocar uma deficiência de cálcio. Nutriente essencial, o cálcio já tem sua absorção prejudicada por causa das altas doses de corticóides contidas nos medicamentos utilizados no tratamento das doenças inflamatórias intestinais. E os efeitos colaterais podem gerar problemas como a osteoporose (perda óssea por falta de cálcio). Em função disso, a melhor opção é utilizar produtos com menor teor de lactose. Hoje, existem no mercado leites com teores reduzidos deste açúcar sem prejuízo para o sabor ou para o valor nutritivo. São encontrados em farmácias ou supermercados como o LEVÍSSIMO, da CCPL e o ZYMIL, da Parmalat. Muitos pacientes os utilizam sem qualquer efeito adverso. Isso é possível porque as indústrias adicionam a enzima lactase ao produto. Para quem não quer abrir mão dos alimentos com lactose, a saída é uma pastilha chamada LACTAID, composto da lactase, disponível nos Estados Unidos. Ela deve ser mastigada logo após a ingestão dos alimentos com lactose. Seu efeito é quebrar e desdobrar a lactose permitindo que o leite seja absorvido diretamente sem os efeitos descritos anteriormente.
Pode-se também lançar mão de produtos industrializados como suplementos e complementos nutricionais que sejam totalmente isentos de leite e ofereçam calorias, proteínas e cálcio em quantidades adequadas.
Contudo, é importante ressaltar que nem sempre os sintomas da intolerância à lactose têm a ver com a ingestão de lactose. Esses mesmos sintomas podem ser causados por outros componentes dos alimentos lácteos, como gordura, açúcares ou fibras. Portanto, é necessário conhecer detalhadamente os hábitos alimentares de cada paciente para se estabelecer uma correlação exata dos alimentos com os sintomas. Assim, os especialistas devem trabalhar com as intolerâncias considerando as características individuais, e formulando a proposta adequada a cada um. Desta forma estaremos contribuindo para a melhora ou manutenção do estado nutricional do paciente e contribuindo para que o tratamento seja bem-sucedido.

Fonte: Revista ABCD em FOCO